A seção Diálogos Possíveis é um periódico da UFBA que se destina a fomentar a interação entre pesquisadores/autores, de distintas áreas do conhecimento, que disponibilizam o conteúdo de sua produção no Repositório Institucional da UFBA. Na edição de 5 de Maio de 2015, temos um diálogo entre a professora Fabiana Dultra Britto (FB) da Escola de Dança da UFBA e o professor Waldomiro J. Silva Filho (WS) da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA.

Boa leitura!

Diálogos Possíveis - UFBA

Diálogos Possíveis

(FB) O seu percurso de formação acadêmica começa na Filosofia, vai para Comunicação e agora se situa na interface entre Filosofia e Ciência, no Programa de Pós-Graduação em Epistemologia Filosofia e História da Ciência que você coordena. Quais foram suas motivações para seguir esse percurso interdisciplinar? Você enfrenta dificuldades para a aceitação dos seus trabalhos pelos ambientes acadêmicos das respectivas disciplinas que você articula? De que tipo?

(WS) No Brasil, quase sempre a filosofia é pensada como “história da filosofia” ou como “exegese de textos clássicos” – um tipo de trabalho muito técnico e sofisticado de interpretação da tradição intelectual da Europa. Desse ponto de vista, a questão é oferecer uma reconstrução de um movimento das ideias (e.g. o idealismo alemão, o iluminismo, o marxismo e assim por diante) ou uma compreensão aguda de um texto (e.g. o sentido de angústia em Kierkegaard ou de experiência em Locke). Isso tem produzido uma ampla fortuna crítica e um trabalho de alta qualidade, porém em virtude de aspectos peculiares à minha trajetória intelectual (que não há como descrever aqui, mas que envolve uma pitada de deliberação e outra de acaso), eu acabei seguindo um outro caminho. Meus interesses se concentram em problemas, não em teorias ou autores, mesmo que eu precise percorrer e analisar obras de filósofos para compreender e me posicionar acerca desses problemas (cinco autores são especialmente importantes: Sexto Empírico, David Hume, Thomas Reid, Donald Davidson e Oswaldo Porchat). Entre esses problemas está a relação entre nossos estados epistêmicos (crenças, pensamento etc.) e a linguagem comum, a natureza da racionalidade tipicamente humana e o ceticismo. Além de preocupado com “problemas”, essa minha trajetória me impõe algo parecido como “obrigações intelectuais”: a busca de ideias claras, manter-me aberto para dialogar com pessoas que estejam interessadas nos problemas que me comovem, procurar resolver ou dissolver esses problemas (esses são compromissos que nem sempre consigo satisfazer e a sensação de frustração é muito frequente). Além disso, assumo que são muitas as formas de estudar e praticar a filosofia e que todas igualmente merecem progredir. Assim, mesmo preservando uma abordagem estritamente filosófica, sempre foi muito fácil, para mim, estabelecer relações intelectuais com pessoas de diferentes formações e interesses filosóficos e de diferentes áreas do conhecimento. Os requisitos para encontrar pares acadêmicos são simples: ter um problema relevante comum e ter uma atitude modesta e educada nos desacordos intelectuais.

Mas tenho algumas reservas em relação a certo discurso da interdisciplinaridade que se mostra pouco rigoroso do ponto de vista técnico e conceitual. De fato, a realidade não é “disciplinar” e nenhuma disciplina teórica é capaz de captar o real. Parece-me que o grande desafio não é dissolver a nitidez entre as disciplinas, mas termos um espaço institucional, como a universidade, onde pessoas de trajetórias de formação e com habilidades intelectuais diferentes podem dialogar sobre problemas relevantes comuns. Eu tenho a felicidade de estar vinculado a um programa de pós-graduação que é, até onde sei, uma das mais bem sucedidas experiências universitárias de reunião de pesquisadores de diferentes áreas: são físicos, biólogos, matemáticos, químicos, filósofos, historiadores, entre outros que, num certo mometo, decidiram trabalhar em cooperação para entender melhor o lugar que a ciência ocupa na sociedade contemporânea e quais o objetivos (e meios) para a divulgação do saber científico na educação formal ou não. Porém, minha contribuição a esse grupo seria pouco significativa se eu não estivesse envolvido em pesquisas estritamente filosóficas e comprometido com a excelência em filosofia.

Se eu tive “dificuldades para a aceitação dos [m]eus trabalhos”? Não. Eu vejo as coisas com simplicidade: se eu escrevo um artigo de boa qualidade, será acolhido num congresso ou numa revista bem qualificada. Mas falando no campo das relações acadêmicas, tenho uma atitude mais rígida: eu só converso com quem está disposto a conversar. Para mim, o trabalho intelectual implica num certo grau de amizade, interesse mútuo, boa educação, respeito, tolerância, desacordo em torno de razões. Se um pessoa não tem as virtudes intelectuais mínimas para ser um bom interlocutor (seja ele filósofo, físico, psicólogo ou torcedor do Flamengo), não me importo de ser ignorado por ela.

(FB) O dualismo mente-corpo fundamenta todo um corolário de crendices sobre a Dança que a rotulam, por exemplo, de “linguagem do indizível”, cujo enfrentamento, pelas pesquisas teóricas dos estudos pós-graduados nesse campo, tem se nutrido basicamente da noção de embodied mind dos autores Lakoff & Johnson. Em que medida as suas pesquisas sobre epistemologia externalizada e limites da racionalidade poderiam oferecer diferentes contribuições à esse debate em torno da Dança? 

Prof. Waldomiro J. Silva Filho

Prof. Waldomiro J. Silva Filho

(WS) Eu não conheço os trabalhos de Lakoff & Johnson. Mas acompanhei uma parte desse debate sobre a relação mente-corpo na filosofia contemporânea, sobretudo a crítica àquilo que muitos chamam de dualismo cartesiano. Respeito profundamente os grandes avanços na pesquisa científica sobre o cérebro e a inegável contribuição das Ciências Cognitivas, entrementes, na minha modesta opinião, há pelo menos um sentido no qual o dualismo está justificado e merece ser considerado seriamente, quando o que está em jogo é ou explicar fenômenos e objetos físicos ou entender fenômenos e objetos psicológicos e morais.

Dizer que a melhor explicação que podemos dar é uma explicação que remonte a um vocabulário exclusivamente fisicalista pode, de um lado, “reduzir” estados mentais e morais a estados físico-químicos do cérebro ou simplesmente assumir que todo o vocabulário psicológico (que envolve termos como acreditar, desejar, esperar, pensar e assim por diante) não tem qualquer poder explicativo e deve ser simplesmente eliminado. Eu acho isso um equívoco. Não só é apropriado dizer que quando eu falo « Maria deseja falar » estou descrevendo um fenômeno que não se reduz a um fenômeno físico como é correto afirmar esse tipo de atribução tem o poder de “explicar” a conduta de Maria. Além disso, na posse de um vocabulário psicológico, podemos pensar as coisas que as pessoas fazem em termos de razões, deliberações, juízos (e o espaço das ocorrências empíricas não é o espaço das razões). Assim, assumo que sou um dualista sem culpa.

Para a epistemologia externizada, o contéudo dos nossos estados cognitivos subjetivos depende do modo como o mundo é, independente de como pensamos que ele seja. De acordo com David Armstrong – que introduziu esse termo como termo técnico em Epistemologia – uma abordagem externista do conhecimento considera que o que faz uma crença um caso de conhecimento não são condições puramente subjetivas, mas algumas relações naturais que se dão entre o estado-de-crença e a situação que torna a crença verdadeira, o que envolve a relação do sujeito que acredita e o mundo.

Isso impõe uma perspectiva mais modesta em relação aos poderes e capacidade epistêmicas das pessoas. A partir daqui, o sujeito precisa apenas se encontrar num contexto ou processo confiável para formar crenças que, na maioria das vezes, serão verdadeiras. Isso afeta a ideia de racionalidade porque, aceito isso, não deve ser exigido que esse sujeito tenha pleno e absoluto domínio acerca dos seus conteúdos cognitivos. No limite (mas isso não é o que o externismo diz, é o que eu penso), ele pode criticar a confiabilidade da sua performance intelectual e se esforçar para formar uma visão mais compreensiva e coerente das coisas. Como diz um filósofo que admiro muito, não podemos exigir da razão mais do que ela pode fazer: muitas coisas relevantes podem nos ser ignoradas e, no fundo, temos apenas um entendimento incompleto dos conteúdos das nossas próprias crenças.

Não sei se isso pode contribuir para o debate atual em Dança. Mas sei que isso tem mudado a opinião dos filósofos sobre nossa vida cognitiva.

(FB) Embora todo o trabalho já feito de popularização da Filosofia (indo desde a sua inclusão em currículos escolares do ensino público e sua divulgação em programas de TV, até o seu “exercício” como técnica de auto-ajuda), ainda se cultiva um elitismo maniqueísta que vê o filósofo como um “iluminado do bem”. Como você pensa o papel da Filosofia na constituição da esfera pública em que se inclui a Universidade? Especialmente, neste momento, em que dois importantes cargos públicos – de Reitor da UFBA e de Ministro da Educação – são ocupados por filósofos.

(WS) A filosofia, como a praticamos hoje nas universidades, é algo relativamente recente, com cursos especializados em filosofia, profissionalização de filósofos, professores de filosofia etc. Tal como vejo as coisas, a filosofia só surgiu na Grécia Antiga porque havia um tipo muito singular de prática social: os gregos haviam instituído que suas leis e a condução da vida prática deveriam ser objeto de deliberação pública (e todos deveriam se submeter a essa deliberação). Para participar da vida pública, os homens (e nesse caso somente homens, mesmo) deveriam estar intelectual e moralmente preparados para debates, disputar razões, enfrentar desacordos racionais, aceitar as regras do jogo dialético e, por fim, submeter-se à luz da razão e não da imposição da força. Mas, convenhamos, não é qualquer pessoa que consegue fazer isso. Mesmo hoje, na era da ciência, poucas pessoas conseguem jogar esse jogo. A filosofia, parece-me, deve ter relação com essa formação de virtudes intelectuais e virtudes morais

Entre nós, na maioria das vezes, as pessoas identificam a filosofia com uma teoria filosófica (a teoria do conhecimento de Locke, a teoria política de Rousseau e assim por diante), mas, para mim, a filosofia não é mais do que uma atitude diante das disputas humanas. Vejam a posição que Sócrates ocupava. Qual é a “teoria filosófica de Sócrates”? Ele apenas busca examinar apuradamente as posições em desacordo, evitar assumir precipitadamente uma posição dogmática e, sobretudo, manter a força do diálogo.

Por isso, vejo a filosofia como um cultivo de uma atitude intelectual não-dogmática e virtuosa. “Não-dogmática” porque o filósofo parte do reconhecimento do desacordo de opiniões sobre assuntos inescapáveis (como a justifiça, o bem, o conhecimento etc.) e, desse reconhecimento, procura evitar deliberadamente posições intelectuais precipitadas sem compreender corretamente as posições contrárias. Eu não vejo sentido na filosofia sem isso. Por outro lado, também é uma atitude “virtuosa” porque envolve o aprendizado de certas virtudes intelectuais como o domínio de ferramentas intelectuais para a pesquisa, o estudo cuidadoso dos argumentos, manter a mente aberta, a prudência, o esforço de estabelecer panoramas compreensivos dos problemas (saber dar um passo atrás e observar o cenário), o cuidado com as amizades.

Na universidade, creio que nossa contribuição é, de um lado mais básico, cuidar para que nossos alunos tenham uma sólida formação humanística (para que eles compreendam os grandes movimentos das ideias humanas, que desenvolvam a capacidade de pensar com rigor e respeito), que tenham as melhores e mais sofisticadas ferramentas e habilidades mentais. Por outro lado, acho que as pessoas que têm formação filosófica devem contribuir para que a universidade realize sua vocação para a produção de conhecimento e intervenções sociais – não é suficiente ler corretamente os clássicos, também é importante contribuir para o avanço dos debates atuais, propondo soluções novas para antigos problemas. Mas isso, é claro, não se aplica apenas aos professores de filosofia. Por isso, não há um papel especial para os filósofos nessa história.