Este trabalho foi apresentado no II Encontro de São Lázaro, realizado na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, entre os dias 13 a 17 de junho. Abaixo, um resumo da apresentação:

Externismo, Passado e Preservação de Conteúdo (Felipe Rocha)

A memória é um elemento central para a composição do ser humano, principalmente como um ser racional, e por isso, reflexões sobre a memória são tão antigas na filosofia quanto a própria filosofia. Na filosofia recente, a memória aparece nas reflexões sobre a identidade pessoal, justificação epistêmica e a ética da memória, entre outras reflexões.

Este trabalho pretende apresentar a resposta de Tyler Burge ao “Argumento da Memória” proposto por Boghossian ao questionar as implicações da tese externista. A resposta de Burge em “Memory and Self-Knowledge” explica a memória como uma faculdade humana que tem como papel preservar o conteúdo dos pensamentos durante o tempo. A tese de Burge sobre a memória é classificada como um “externismo passadista” (pastist externalism). Será apresentada neste trabalho a diferença entre esse externismo de Burge e outras respostas dadas ao argumento da memória que podem ser classificadas como “externismo presentista” (presentist externalism).

O externismo semântico (doravante, apenas “externismo” ou “anti-individualismo”), é a tese que diz que o conteúdo dos nossos pensamentos é, pelo menos em parte, determinado pelo entorno físico ou social em que nos encontramos. Esta tese se opõe à tese internista que defende que, por termos acesso direto, imediato e privilegiado aos nossos pensamentos, não é possível duvidar do conteúdo dos pensamentos, pois o conhecimento dos nossos pensamentos é infalível. Sobre essas verdades indubitáveis e auto-evidentes, Descartes diz que “[…] não podemos duvidar delas a não ser que pensemos nelas; e não podemos pensar nelas sem, ao mesmo tempo, acreditar que sejam verdadeiras, isto é, nunca podemos duvidar delas”.

O externismo surgiu como uma tese filosófica que questiona a validade do internismo com argumentos que tem sido amplamente aceitos nos últimos anos, de modo que as últimas discussões filosóficas sobre essa teoria não tem sido sobre sua validade, mas sim, sobre as suas principais implicações. Uma das primeiras implicações, apresentada por Boghossian no artigo “Content and Self-Knowledge” é a de que se o externismo é correto, então nós não podemos dizer que sabemos o que pensamos quando pensamos em algo. Este é o problema da incompatibilidade entre o Anti-Individualismo e o Autoconhecimento. Outra implicação também apresentada por Boghossian foi apresentada com o “Argumento da Memória”, que diz que, se o externismo é verdadeiro e não é possível saber o que penso agora, então também não é possível saber o que pensei no passado. Burge, para defender sua tese compatibilista, explica que a memória tem como papel fundamental preservar o conteúdo dos nossos pensamentos, de acordo com o conteúdo fixado no passado. Essa tese é classificada por Bernercker como “externalismo passadista”, pois o conteúdo da memória é fixado de acordo com o conteúdo do pensamento no passado. Outras respostas, como a de Ludlow, afirmam que um externalista deve defender que o conteúdo da memória é fixado no momento em que o pensamento é lembrado, defendendo assim um “externismo presentista”. Neste trabalho, estas teses serão apresentadas com mais detalhe, assim como a importância do estudo sobre a memória para a filosofia contemporânea.