Este trabalho foi apresentado no II Encontro de São Lázaro, realizado na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, entre os dias 13 a 17 de junho. Abaixo, um resumo da apresentação:

Mente e natureza: o caráter distintivo da ação humana (Ana Margarete B. de Freitas)

O naturalismo é uma tese sobre aquilo que existe. Segundo essa visão não há nada além da natureza, nada além do universo físico: todas as coisas são físicas, compostas por partículas de matéria que exibem propriedades físicas e se comportam segundo as leis físicas – leis estritas e deterministas. Uma posição naturalista no estudo da mente afirmaria que os estados e eventos mentais são apenas casos particulares de eventos físicos, endossando uma posição monista no estudo mente, uma vez que alega a existência de uma única substância – a matéria – e nega a possibilidade de haver um outro tipo de substância imaterial que poderia ser identificada à mente.

Visto que há apenas o mundo físico, uma visão naturalista radical afirmaria que os conceitos mentais empregados no vocabulário da psicologia popular para descrever, explicar e prever as ações humanas devem ser abandonados, dando lugar a conceitos formulados na linguagem das ciências naturais. A utilização de um vocabulário físico na explicação das ações humanas implica em estabelecer relações de causa e efeito, produzindo generalizações e leis tais quais as leis das ciências físicas.

O objetivo desse trabalho é mostrar que a ação humana não pode ser estudada e explicada da mesma forma que o comportamento dos sistemas físicos. Apesar de ser constituído apenas de substância material, há algo nos seres humanos que os caracterizam como tal e que os distingue dos outros artefatos físicos, e é isso que impede a redução dos conceitos e propriedades psicológicos a conceitos e propriedades físicos.

Segundo Donald Davidson, os eventos mentais estão relacionados causalmente aos eventos físicos, entretanto não podem ser explicados pelas ciências físicas, pois a sua explicação perpassa pela interpretação linguística e abrange uma relação complexa com outros eventos e condições mentais, cuja descrição física não consegue abarcar. Um evento é considerado mental apenas quando descrito em um vocabulário psicológico, o que implica dizer que as ações humanas são dotadas de intencionalidade. Assim, para compreender a ação de um indivíduo é necessário interpretá-la dentro do contexto global das suas razões, crenças e motivações; a sua ação deve ser racionalmente justificada à luz dos seus estados intencionais. Essas justificações apoiadas em razões operam em um âmbito conceitual no qual não é possível estabelecer correlações legiformes precisas. Dessa forma, enquanto os eventos físicos podem ser explicados a partir de uma abordagem nomológica, a ação intencional pode ser apenas interpretada de acordo com as crenças e desejos dos indivíduos.