Por: Marcelo Pires

Em conversas de corredores sobre a Comissão da Verdade, percebi uma coisa, pelo menos para mim, interessante. Eu não possuía vinculo algum com “essa tal de ditadura”. Para mim não passa de um evento histórico, com toda importância e com todas as repercussões que um evento de tal monta possa ter. Mas, ainda assim, um evento histórico, e só. Meu pai não foi torturado, não tenho nenhum parente desaparecido. Ela não é parte de minha vida pessoal como o é para muita gente que viu barbaridades, que teve pessoas queridas sequestradas e “desaparecidas” ou “suicidadas”.

Esse é um dos aspectos que a “comissão da verdade” mais coloca como evidente para mim: mostrar para mim e para outros, decerto, que a ditadura não é apenas um evento histórico, mas um evento muito atual para muitos. Para muitas famílias violadas, destruídas, que tem até hoje que conviver com o silêncio de um país que prefere não falar sobre estas questões constrangedoras, com a anistia daqueles que “desapareceram” seus pais, que “suicidaram” seus irmãos.

Comissão da Verdade

Comissão da Verdade

Foram a estas questões que me levaram duas reportagens trazidas pelo ig – ‘Nasci na luta’, diz ex-preso político torturado ao lado do pai – e – Ao iG, pai de ministro narra a dor de viver longe do filho durante a ditadura. A primeira sobre o Ivan Seixas, que cresceu tendo pai e mãe militantes contra a ditadura, foi capturado com o pai, ficou preso no DOI-Codi, foi, ao lado de seu pai, torturado. Hoje ele diz que a Comissão da Verdade “É a coisa mais sensacional que poderia ter acontecido e que devia ter acontecido muito tempo atrás”; outra sobre o Anivaldo Padilkha, pai do Ministro Alexandre Padilha, obrigado a fugir do País quando a mulher estava grávida, e só conheceu o filho oito anos depois. Ele diz que a distância foi a pior das torturas: “É uma dívida que a ditadura tem comigo”.

Aliás, olhando bem, todos nós temos algum vínculo, mesmo que bastante indireto com as brutalidades cometidas pela ditadura. Quando eu tinha 6 anos de idade, meu pai me aparece em casa com um caminhão de mudança e um presente para mim: um piano francês raro. Depois, mais velho, questionei como ele conseguiu comprar aquilo. Sabia que era muito caro. E aí, soube da história. A filha de um militar importante queria se livrar de tudo que lembrava de seu pai, segundo ela própria, um importante “torturador” da ditadura. Ela estava praticamente pagando para alguém livrá-la daquele piano. E meu pai pagou por ele um preço que não compraria nem um teclado velho.