Disponibilizo nesta postagem algumas anotações que fiz sobre o artigo “O Individualismo e o Mental” (Individualism and the Mental) de Tyler Burge, para apresentar na disciplina “Epistemologia sem Fundamentos”, do prof. Waldomiro Silva Filho.

Qualquer observações, comentários e críticas sobre essas anotações serão bem vindas.

Notas sobre “O Individualismo e o Mental” de Tyler Burge

1. Argumento Central

O artigo “O Individualismo e o Mental” de Tyler Burge gira todo ao redor de um argumento. O argumento que Burge pretende apresentar e defender é que o conteúdo dos nossos pensamentos é, pelo menos em parte, determinado pelo entorno físico e social em que nos encontramos. Burge diz na página 15 que “[o] contexto social contamina mesmo as características distintamente mentais das atribuições mentalistas. Nenhum fenômeno mental intencional de pessoa alguma é uma ilha. Todos os homens são parte do continente social, da terra firme social”.

2. Motivação (e Lógica)

Nenhum fenômeno mental intencional de pessoa alguma é uma ilha. Todos os homens são parte do continente social, da terra firme social

"Nenhum fenômeno mental intencional de pessoa alguma é uma ilha. Todos os homens são parte do continente social, da terra firme social"

O que importa para Burge é apresentar uma tese que nega a idéia do mental que predominou por um bom tempo na filosofia, conhecida como internismo (internalismo). Sua estratégia é o de simplesmente apresentar um contra-exemplo ao internismo.
Em lógica, se digo: “Todos os alunos estão presentes”, basta que apenas um não esteja presente para que minha afirmação seja falsa. Burge então procura pelo menos um contra-exemplo que negue o internismo. Este contra exemplo é apresentado no experimento mental da “artrite”.

3. Terminologia

Como Burge precisa de apenas um contra-exemplo, pelo menos neste artigo, então ele não precisa falar de todo o funcionamento do mental, mas apenas de um que funcione como contra-exemplo. Burge então decide analisar um discurso mentalista muito específico:
O discurso que contém subordinadas-que em que um ou alguns termos da oração de conteúdo ocorra obliquamente.
Assim, o que Burge não está analisando neste artigo (e neste momento, não precisa analisar, para atingir o seu objetivo):
a)    O discurso mentalista que envolve sensação (“João sente dor”, “Maria está feliz”, etc)
b)    O discurso mentalista que envolve verbos de “sucesso” psicológico (verbos factivos) como “saber”, “lamentar”, “prever”, “perceber”, etc..
c)    Discurso em que os termos ocorrem não-obliquamente, e que também não possuam nenhuma referência indexal, ou em atitudes de re.
Ex: “Pedro acredita que a água deste copo está suja” (mesmo sendo um copo de vodka).

No caso das orações subordinadas-que em que os termos aparecem obliquamente, quando a extensão dos termos é diferente, então o conteúdo da oração é diferente, e disso pode-se dizer que então temos pensamentos diferentes. Atitudes proposicionais com conteúdos diferentes.
Isto é demonstrado através das três etapas do experimento mental.

4. Experimento Mental em três etapas

Suposição:
“uma determinada pessoa tem um grande número de atitudes que lhe são normalmente atribuídas por meio de orações de conteúdo contendo ‘artrite’ em ocorrência obliqua. Por exemplo, essa pessoa pensa (corretamente) que tem artrite há anos, que a artrite nos seus pulsos e dedos é mais dolorosa que a artrite nos seus tornozelos, que é melhor ter artrite que câncer no fígado, que o enrijecimento das articulações é um sintoma de artrite, que certos tipos de dor são característicos de artrite, que existem vários tipos de artrite, e assim por diante. Em suma, a pessoa tem uma grande variedade de tais atitudes. Além dessas atitudes previsíveis, ela pensa, erradamente, que desenvolveu artrite na coxa”

4.1. Primeira etapa – Caso “normal”:
O paciente relata ao médico que teme que a artrite tenha se alojado em sua coxa. O médico o corrige. O paciente se surpreende, desiste de sua opinião e pergunta ao médico o que pode estar errado com sua coxa.

4.2. Segunda etapa – Caso Contrafactual:
Toda a história de vida, fisiológica, acontecimentos, etc, do paciente permanecem exatamente o mesmo, nessa situação hipotética. Nada muda até o momento em que ele conversa com o médico. “A contrafactualidade, nessa suposição, diz respeito ao ambiente social do paciente”, diz Burge. Nesse caso, o termo ‘artrite’ é usado para várias patologias reumatológicas. Burge resume essa segunda etapa:

“A pessoa poderia ter tido a mesma história física e os mesmos fenômenos mentais não intencionais caso a palavra ‘artrite’ fosse convencionalmente aplicada, e definida como podendo ser aplicada, a varias moléstias reumatóides, inclusive a uma moléstia na coxa, bem como à artrite.”

4.3. Terceira etapa – Interpretação:
“O resultado destas reflexões é que os conteúdos mentais do paciente diferem, enquanto sua história física e sua história mental não-intencional, completas tomadas isoladamente de seus contextos sociais, permanecem idênticas.”
“A diferença em seus conteúdos mentais é atribuível à diferenças em seu ambiente social.”

4.4. Outros exemplos:
Burge diz que é possível encontrar vários outros exemplos no nosso cotidiano semelhantes ao exemplo da “artrite”. Como diz Burge, “[o] argumento pode funcionar em qualquer caso em que seja intuitivamente possível atribuir um estado ou um evento mental cujo conteúdo envolva uma noção que o sujeito compreenda de modo incompleto”. Esses casos são bastante comuns em nosso dia a dia.
A compreensão incompleta é um ponto chave no argumento de Burge.

4.5. Inversão do experimento mental (p. 12):
O experimento mental poderia ser apresentado de forma invertida, e mesmo assim, ele também chamaria a atenção para o argumento principal do artigo. Como diz Burge:

“Temos de levar em conta a comunidade de uma pessoa ao interpretar suas palavras e descrever suas atitudes – e isso se dá tando no caso do estrangeiro como no caso doméstico.
A inversão do experimento mental nos faz compreender a importante observação de que mesmo aquelas atitudes proposicionais que não estão contaminadas por compreensão incompleta dependem, quanto ao conteúdo, de fatores sociais que são independentes ao indivíduo, tal como seria descrito associalmente e não-intencionalmente. Uma vez que, se o ambiente social fosse adequadamente diferente, os conteúdos daquelas atitudes seriam diferentes.”

5. Possíveis Objeções e Defesas

Burge imagina, neste artigo, algumas objeções e críticas que podem ser feitas ao seu argumento e procura responder a cada uma delas. Por questão de tempo e objetividade, citarei apenas duas dessas críticas.

5.1. Crítica à compreensão incompleta:
Neste caso, a crítica é feita à primeira etapa do experimento. Segundo essa crítica, “deveríamos negar que, digamos, o paciente realmente acreditava ou pensava que a artrite poderia ocorrer fora das articulações, porque ele compreendeu mal a palavra ‘artrite’. De modo mais geral, deveríamos negar que o sujeito pudesse ter qualquer atitude cujos conteúdos ele compreendesse de modo incompleto”.
Ou seja: segundo essa linha de pensamento, ter uma atitude proposicional envolve compreender completamente e totalmente o seu conteúdo.
Burge responde demonstrando que a compreensão incompleta é intuitiva, algo extremamente comum e corriqueiro. Por isso ele diz que “qualquer impulso para dizer que a prática comum é simplesmente inconsistente deveria ser evitado (na verdade, desprezado).

5.2. Compreensão incompleta e conteúdo indefinido:
Segundo Burge, é possível encontrar essa linha de pensamento em Descartes. Essa linha diz que se a compreensão é incompleta, então o conteúdo da atitude do sujeito é indefinido.
Para Burge, existe pouco embasamento para o apelo à indefinição. Um sujeito que possui compreensão incompleta pode confirmar ou desconfirmar suas crenças, tanto nos casos em que são verdadeiras e sem problemas, quanto nos casos em que a compreensão é errôna.

6. Aplicação do Argumento

O argumento de Burge é aplicado como um contra-exemplo às teorias filosóficas individualistas, que diz que os fenômenos mentais de uma pessoa são, em última analise, interpretadas em termos do que acontece com a pessoa, em seu interior, sem nenhuma referência ao entorno social. É possível encontrar esta tese individualista em filósofos como Platão, Descartes, Russell e outros. Um dos principais pontos deste modelo individualista é a comparação da relação entre o conteúdo do pensamento e a pessoa com a visão. Se vejo algo, a minha experiência é direta, imediata. Se abro o olho, não posso escolher o que ver, ou deixar de ver. Assim, esse modelo faz a mesma analogia: se penso algo, tenho uma experiência direta, imediata, de modo que “a inspenção que a pessoa pode fazer do conteúdo de seus pensamentos é infalível”.

Mas Burge afirma que:
“O experimento mental indica que certas “verdades lingüísticas” que foram frequentemente consideradas como indubitáveis podem ser entretando postas em dúvida. E mostra que o conteúdo do pensamento de alguém não é fixado por aquilo que acontece dentro da pessoa, ou por aquilo que está acessível à pessoa simplesmente por meio de reflexão cuidadosa. A razão para esta última observação sobre ‘acessibilidade’ não precisa ser que o conteúdo repousa muito profundamente nos recessos inconscientes da psique do sujeito. Conteúdos dão as vezes ‘inacessíveis’ à introspecção simplesmente porque grande parte das atribuições mentalistas não pressupõe que o sujeito tenha dominado completamente o conteúdo de seu pensamento.”

Burge também mostra como seu argumento pode ser aplicado contra teorias behavioristas, funcionalistas e outras teorias individualistas sobre o mental, mas creio que não cabe aqui analisar. O que pode-se considerar é que suas respostas foram aparentemente bem sucedidas dentro da discussão filosófica sobre o tema.

7. Modelo do Mental

O modelo do mental defendido por Burge neste artigo é um modelo externista, ou anti-individualista. Como Burge diz, a característica-chave é que “nós atribuímos crenças e pensamentos às pessoas mesmo quando elas compreendem incompletamente os conteúdos daquelas mesmas crenças e pensamentos. […] Em particular, as expressões que o sujeito usa fornecem, às vezes, o conteúdo de seus eventos e estados mentais, mesmo que ele apenas parcialmente compreenda, ou mesmo compreenda erroneamente, alguma delas.”.

O experimento mental da ‘artrite’ foi um contra-exemplo para ser utilizado contra o modelo individualista do mental. Mesmo sendo um contra-exemplo muito pontual, envolvendo subordinadas-que com termos em ocorrência obliqua e compreensão incompleta, sendo bem sucedido, este contra-exemplo permite que se afirme a tese anti-individualista que diz que o conteúdo dos nossos pensamentos é, pelo menos em parte, determinado pelo entorno físico e social em que nos encontramos.
Com o sucesso de sua argumentação, Burge abre então uma porta para que novas investigações sobre o mental seja feita com base no modelo anti-individualista. Assim, outros discursos mentalistas podem ser analisados sob essa nova perspectiva, e as conseqüências podem ser exploradas.