Este trabalho foi apresentado no II Encontro de São Lázaro, realizado na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, entre os dias 13 a 17 de junho. Abaixo, um resumo da apresentação:

Pragmatismo, natureza e verdade (Daniel Cerqueira Baiardi)

Esta comunicação tem por pretensão demonstrar a destacada participação de William James (1842-1910) no que compreendemos como programa de pesquisa em epistemologia evolutiva. Entendemos que o conteúdo teórico deste programa, até as últimas décadas do século XIX, consistiu principalmente das contribuições de Charles Darwin (1809-1882) e Herbert Spencer (1820-1903). Alguns autores consideram que a aproximação jamesiana é essencialmente darwinista. Entretanto, as semelhanças com o sistema de Spencer são diversas e significativas. Empreendemos uma reconstrução racional do projeto epistemológico de James, destacando sua visão particular do conhecimento humano, o empirismo radical, sua teoria do significado, assim como sua controvertida concepção pragmática de verdade. Neste processo, aspirou-se por explicitar a importância da filosofia sintética de Herbert Spencer no empreendimento jamesiano, até mesmo sobrepujando a conhecida influência de Darwin.

Foi a partir da crítica do “Priciples of Psychology” (1855), de Spencer, que James constrói publicamente sua concepção de mente, na qual o fato central é o interesse. James sugere uma omissão de Spencer em realizar uma verdadeira análise teleológica dos interesses no indivíduo. A teleologia do indivíduo, o finalismo presente no seu comportamento, segundo ele, não permite que a mente se entregue ao caos de uma exposição a todos os elementos da experiência. No entender de James, uma ação mental correta ou inteligente consiste no estabelecimento, correspondente às relações externas, das tais relações internas e reações que favorecerão a sobrevivência daquele que pensa, ou, ao menos, seu bem-estar físico. Esta nova definição é mais precisa, mas, ao mesmo tempo, carregada de teleologia, explicitamente postula uma distinção entre simples ações mentais e aquelas ações mentais as quais Spencer denomina como corretas. Estabelecendo como fins do indivíduo a prosperidade física e a sobrevivência, os quais, no entender de James, são somente interesses subjetivos do animal. Em James, o pensamento correto é o que leva a sobrevivência, entretanto, só é possível decidir por qual no futuro ou mediante previsões probabilísticas. James apresenta uma relevante consideração no que toca ao fato de estes interesses subjetivos serem os verdadeiros elementos a priori na cognição. Pondo em questão se os prazeres e as dores têm algo que ver com a correspondência, assevera que, para um grande número de elementos no ambiente deve haver correlativos internos de um tipo neutro, ou intermediário, como um sentimento de recompensa. A correspondência, dessa forma, já estaria estabelecida a priori na mente do organismo. Assim, atentamos especialmente à Teoria Pragmática da Verdade, por se ter convertido numa das mais importantes concepções de verdade no cenário filosófico contemporâneo, com aplicações em diversos campos do conhecimento, desde a Lógica e as matemáticas até as ciências humanas, da mesma forma, utilizada com semelhante sucesso nas ciências da natureza. Uma das principais críticas às abordagens evolucionistas à epistemologia consiste em acusá-las de fornecer somente aproximações descritivas dos processos cognitivos. Contudo, entendemos a Teoria Pragmática da Verdade enquanto uma aproximação prescritiva, ou ainda, normativa, ao estudo dos processos cognitivos realizada pelo programa evolucionista em questão.