Projeto de Pesquisa em Redes – Edital Nº 12/2012 – FAPESB

O presente conduz uma pesquisa teórico-conceitual que envolve um grupo de pesquisadores de três universidades situadas no Estado da Bahia (UFBA, UFRB e UEFS) que trabalharão em cooperação com 23 pesquisadores de 10 universidades brasileiras (UFPR, UFMG, UFG, UFRJ, UFSM, UFSC, UFGS, UNIFESP, UNIOESTE e PUC-Rio) e instituições estrangeiras (Estados Unidos, México, Argentina, Reino Unido).

Pesquisadores (Núcleo Central):

  • André Luís Mota Itaparica (UFRB)
  • Marcelo Oliveira de Faria (UEFS)
  • Waldomiro José da Silva Filho (UFBA) – Coordenador

Pesquisadores Associados:

  • Eduardo A. Barrio (Universidad de Buenos Aires, CONICET, Argentina)
  • Felipe Rocha Lima Santos (UNAM)
  • Plínio Junqueira Smith (UNIFESP)

Pesquisadores Participante

  • Agustín Rayo (MIT)
  • Alexandre Meyer Luz (UFSC)
  • Alexandre Noronha Machado (UFPR)
  • Ana Margarete Barbosa de Freitas (UFBA, doutorando)
  • André da Silva Porto (UFG)
  • André Luís Mattedi Dias (UFBA)
  • Andrea Schimmenti (UFBA, doutorando)
  • Araceli Rosich Soares Velloso (UFG)
  • Carlos Sartori (UFSM)
  • César Schirmer dos Santos (UFSM)
  • Daniel Cerqueira Baiardi (UFBA, doutorando)
  • Danilo Marcondes de Souza Filho (PUC-Rio)
  • Duncan Pritchard (University of Edinburg)
  • Edgar da Rocha Marques (UFRJ)
  • Eleonora Orlando (Universidad de Buenos Aires, CONINCET)
  • Felipe Rocha Lima Santos (UNAM)
  • Flavio Williges (UFSM)
  • Glenta Satne (CONICET, Argentina)
  • Hilan Bensussam (UnB)
  • Juan Comensaña (University of Arizona)
  • Juliomar Marques Silva (UFBA, mestrando)
  • Kleyson Rosário Assis (UFRB)
  • Marcelo Frederico Augusto dos Santos Veras (UFBA, FAPEX)
  • Márcio José Silveira Lima (UNEB)
  • Orestis Palermos (University of Edinburg)
  • Renato Duarte Fonseca (UFSM)
  • Rogério Antônio Lopes (UFMG)
  • Sven Bernecker (University of California/Irvine)
  • Wilson Antonio Frezzatti Jr. (UNIOEST)

O Problema

Falar de pessoa significa, nas situações normais, considerar alguém como um agente racional porque, além de nos sentirmos naturalmente inclinados a lhe atribuir pensamentos e crenças e acreditarmos que esses pensamentos e crenças influenciam ou até mesmo explicam suas ações, seus comportamentos, também nos sentimos naturalmente inclinados a acreditar que essa pessoa pode entender (conhecer o conteúdo, avaliar e ponderar, crítica e reflexivamente) seus próprios pensamentos e crenças e orientar suas ações à luz desse entendimento. Se não há a transparência das atitudes nesse sentido não podemos dizer que uma pessoa sabe o que diz ou sabe as razões das suas ações e, com isso, perde-se um elemento que é considerado decisivo para estabelecer a característica da ação humana, qual seja, a racionalidade No horizonte da filosofia contemporânea, sobretudo na tradição analítica, a relação entre atribuição de crenças a uma pessoa, o entendimento que essa pessoa tem do conteúdo das suas crenças e a ação racional está no centro do debate sobre autoconhecimento e racionalidade.

Esta pesquisa visa investigar precisamente esta relação entre as noções de autoconhecimento e racionalidade em dois sentidos: a) discutindo criticamente algumas posições filosóficas que reconhecem os limites do conhecimento humano acerca dos próprios estados e atos mentais e b) considerando que a capacidade reflexiva, quando um sujeito examina as próprias crenças, é um elemento fundamental na vida humana tanto em questões morais quando epistêmicas. Para tanto, espelhando as características do Grupo de Pesquisa que sustenta este projeto, são chamadas em causa três perspectivas: a filosofia prática de vertente analítica, a crítica da racionalidade moderna (privilegiando F. Nietzsche) e a abordagem contextualista do conhecimento (privilegiando as ciências sociais, especialmente as investigações sobre a natureza localizada e temporal da experiência).

É importante ressaltar, entrementes, que a formulação do problema desta pesquisa nasce a partir da convergência de dois movimentos: i) expressa um movimento natural de cooperação entre vários pesquisadores nacionais e estrangeiros que vêm discutindo em seminários, colóquios e situações informais o tema da racionalidade e do autoconhecimento e ii) é um desdobramento de investigações anteriores conduzida pelo proponente deste projeto. Sobre esse segundo ponto é necessário um breve relato. As hipóteses geradoras deste projeto foram gestadas em duas pesquisas: a primeira, intitulada Externismo, Autoconhecimento e Ceticismo, desenvolvida sob os auspícios de uma Bolsa de Produtividade do CNPq (triênio 2008-2011); a segunda, Autoconhecimento e Razão Prática, foi o objeto do meu estágio de pós-doutorado no Departamento de Filosofia da Harvard University (Cambridge, MA, Estados Unidos) com o benefício de bolsa da CAPES (biênio 2009-2010). Além disso, ela desenvolve um aspecto central de uma outra pesquisa atual mantida sob os auspícios de Bolsa de Produtividade do CNPq e intitulada Transparência, Reflexão e Vicissitude: Uma Investigação sobre Autoconhecimento e Interesses Práticos (triênio 2011-2013).

Percorrendo esse caminho, mas traçando uma importante mudança de enfoque do problema, o que integra as perspectivas que convergem neste projeto é a hipótese segundo a qual a ideia de racionalidade não pode dispensar a noção de autoconhecimento e esta, por sua vez, não pode dispensar a noção de transparência do mental (que envolve, por sua vez, outras noções como imediatidade, autoridade de primeira-pessoa e responsabilidade), entretanto, por mais que essa suposição seja indispensável para entender os indivíduos enquanto pessoas que acreditam, pensam, desejam, agem de acordo com razões, essa suposição se refere a uma capacidade humana que é parcial, frágil e imperfeita.

Esses limites do autoconhecimento e, consequentemente, da racionalidade, deve-se ao fato de que nossa experiência comum é profundamente marcada pelas emoções e sentimentos, pelo contexto socio-linquístico, pelo lugar (no sentido espacial e geográfico do termo), pela influencia da palavra de outras pessoas na formação de nossas crenças, pela irresistível debilidade da vontade. Por essa razão, mesmo que essa seja uma prática incomum na comunidade filosófica brasileira, esse projeto APROXIMA e INTEGRA tradições e enfoques conceituais diferentes, a saber temas da filosofia nietzscheana e das ciências sociais a temas de filosofia analítica. O que importa aqui é um problema e essas aproximações se tornaram uma imposição da própria pesquisa, deslocando a discussão sobre autoconhecimento e racionalidade para além dos aspectos estritamente epistemológicos e semânticos.

Metodologia

Esta é uma pesquisa teórica que se inscreve no espírito da Filosofia Analítica: ou seja, de um lado, será desenvolvida, sobretudo, numa investigação bibliográfica a partir das fontes primárias e, do outro lado, acontecerá no ambiente de um diálogo direto entre os pesquisadores envolvidos. Ora, a filosofia analítica tem esse traço muitíssimo singular: normalmente o filósofo analítico não se apega a uma doutrina ou teoria, mas procura, por meio de argumentos e análises conceituais, entender os usos de certos termos, esclarecer noções confusas e resolver (se for possível) problemas; e isso é feito em torno de ideias e pontos de vista, numa dinâmica marcada pela conversa com colegas. Por essa razão, frequentemente o trabalho de um filósofo individual espelha a cooperação com vários colegas ao largo de seminários e colóquios.

O desenho geral deste projeto deveu-se, por exemplo, à convivência e diálogo com alguns colegas, como os Profs. Eduardo Barrio (Argentina), Pedro Stepanenko (México), Agustín Rayo (Estados Unidos), Paulo Faria (Brasil) e César Schirmer (Brasil), à experiência singular de acompanhar na Harvard University e no MIT os seminários Ralph Wedgwood (University of Oxford), John McDowell (University of Pittsburgh), Judith J. Thomson (MIT) e Hilary Putnam (Harvard University) e às conversas e troca de e-mails com os Profs. Carlos Moya (Universidad de Valencia), Richard Moran (Harvard University), Sven Bernecker (University of California-Irvine), Duncan Pritchard (University of Edinburg) e Tyler Burge (University of California). Uma situação especialmente importante foi a realização do VI Colóquio de Filosofia Analítica em 2008 que contou com a presença de Paulo Faria (UFGRS), Plínio J. Smith (UNIFESP), Carlo J. Moya (Universidad de Valencia), Hilan Bensusan (UnB), Alexandre N. Machado (UFPR), Roberto Horácio de Sá Pereira (UFRJ), Jônadas Techio (UFGRS), Carlos E. Caorsi (Universidad de la Republica), André Porto (UFG), César S. dos Santos (UFGRS), André Leclerc (UFC), João Vergílio Cuter (USP) e Marco Ruffino (UFRJ).

Para conduzir esta pesquisa, procuraremos manter o equilíbrio entre a análise rigorosa de argumentos e conceitos e a prática da interlocução entre colegas e estudantes. Por isso, a principal contribuição deste estudo não consiste na apresentação de uma teoria filosófica ou na solução de um problema filosófico clássico. Ele procura se espelhar num modo exemplar de praticar a filosofia baseado na prioridade do debate e da busca dos melhores (e mais claros) argumentos. O que importa, em primeiro lugar, é reconhecer que há um problema importante em torno do qual orbitam teorias e posições intelectuais divergentes. Ora, reconhecer que há um problema significa compreender uma complexa rede de idéias e a trajetória da nossa cultura intelectual; significa também que devemos manter a mente aberta… Por isso, um dos pontos centrais desta pesquisa se realizará no trabalho contínuo em seminários temáticos periódicos presenciais e por meio de videoconferências e a realização de uma série de workshops com a presença de pesquisadores de outros Estados e do exterior.